PEARL JAM: TEN REVISITADO
Quase duas décadas após seu lançamento, "Ten", o primeiro álbum do Pearl Jam, volta com tudo. E a Vh1 te leva de volta à era grunge contando a história dele.

Confira também a história por trás das canções mais famosas da banda no Vh1 Storytellers e os principais clipes na Videografia Pearl Jam.
PERGUNTAS E RESPOSTAS
Depois de assistir ao documentário Ten: Revisitado, confira a entrevista realizada com o Pearl Jam em janeiro desse ano, em Seattle. Stone Gossard, Matt Cameron e Jeff Stone contam a origem do nome da banda, falam sobre suas músicas favoritas, revelam o segredo da longevidade do grupo e mostram que ainda têm folego pra muito mais.

Por Robin Eggar


P: Seattle sempre esteve por fora do circuito Americano de Rock, então como a cena se deu nos anos oitenta?

Stone Gossard: Todos formavam bandas. Não havia uma pretensão de fazer algo maior. Muitos de nós não sabíamos tocar! Seja o que quer que soubéssemos, tentávamos fazer bem e isso resultou em estranhas combinações de pessoas tocando juntas em uma onda “o que temos a perder?”.

Matt Cameron: Seattle estava isolada e muitos movimentos conhecidos de rock não chegariam necessariamente a Seattle e Portland. Isso forçou a cena musical do North West a criar algo próprio. Quando o underground dos anos oitenta estava finalmente se organizando nos Estados Unidos com bandas como Black Flag e Husker Du, Minor Threat, Butthole Surfers – eles puderam criar um circuito que nada tinha a ver com a indústria musical daquela época. No que nossa música se baseava era o espírito “faça você mesmo”.

P: Jeff e Stone, vocês começaram a tocar juntos em Green River em 1984. Quais eram suas influências?

Stone: Minhas influências eram muito rock e pop de rádios FM. Simon & Garfunkel e disco. Era impossível não ser afetado pela música disco. Mesmo que, na época, não gostasse de disco, ela estava em todos os lugares. Eu perdi o punk britânico, nunca entendi muito bem até começar a ouvir os Sex Pistols em 84, e pensei “nossa, isso é uma banda de rock!”. O heavy metal era forte também. Motorhead era a banda máxima de Seattle, as vitais memórias do quanto se ama Black Sabbath quando se tem oito anos de idade.

P: É dito às vezes que Green River inventou o grunge.

Jeff Ament: (risos) No último ano fizemos quarto shows com Green River e apesar de ter sido ótimo ter voltado, chegamos à conclusão de que estávamos realmente arriscando um Black Flag e Motorhead e The Stooges. Acho que é isso que acabou virando grunge, por isso provavelmente devemos alguns royalties daquela época a Iggy e Lemmy e Greg Ginn. Eles ainda não nos pediram!

P: No começo de 1990, o futuro do rock de Seattle pareceu ser Mother Love Bone, álbum no qual Stone e Jeff escreveram a maioria das músicas. A banda era liderada pelo carismático Andrew Wood e assinou com um grande selo. Dias antes do lançamento do álbum debutante da banda, Apple, Wood tomou uma overdose de heroína. Morreu alguns dias depois de hemorragia cerebral. Quando Andrew morreu, vocês sentiram ter perdido a chance?

Jeff: Eu sentia que aquela era a minha chance. Eu passei um tempinho com Stone logo após a morte de Andy. A gente fazia longos passeios de bicicleta, sentávamos, tomávamos café e conversávamos sobre algo além da banda. Eu tentava ser racional sobre o que eu iria fazer e se Stone e eu voltaríamos a fazer algo juntos novamente. Um amigo meu, Richard Stuverud, estava numa banda chamada War Babies. O baixista deles havia acabado de sair e ele disse ‘temos um show em três dias, você consegue aprender estas músicas e tocar no show com a gente?’. Toquei e me diverti muito, mais do que durante os últimos dias com Mother Love Bone. Mais ou menos na mesma época, Stone disse que ele e Mike [McCready] estavam tocando algumas músicas novas que ele havia escrito e me perguntou se eu queria tocar nos demos que eles estavam preparando.

Stone: Eu amava escrever músicas – eu tinha a ideia e continuaria escrevendo. Estávamos em circuntâncias duras, mas ao mesmo tempo eu amava acordar escrever músicas e tocar na banda – particularmente quando são coisas que sabemos tocar.

P: Como conheceu Mike?

Jeff: Encontrei com o cantor do Shadow no estacionamento atrás do restaurante no qual eu trabalhava e ele me convidou para seu show. Quando saí do trabalho, entrei e Mike estava no palco sozinho tocando um solo de guitarra a la Eddie Van Halen.

Mike McCready [risos]: Mesmo com Jeff na cena punk e comigo na cena metal, a cena era pequena aqui em Seatlle no começo dos anos oitenta, então era difícil não encontrar conhecidos.

No final dos anos oitenta eu havia passado pelo pior da indústria musical. Eu tocava em bandas desde os onze anos e nos mudamos para Los Angeles em 1986 tentando emplacar Shadow por lá. Tocamos por volta de um ano, badalamos, ficamos sem dinheiro e eu me tornei desiludido com o rock and roll. Eu tive uma doença inflamatória no intestino, o que me levou a mudar tudo. Eu sabia que jamais aconteceria. Fui ao extremo ilógico. Então voltei à escola em Seattle, cortei todo o meu cabelo e estava lendo aqueles livros de Barry Goldwater. Isso durou em torno de um ano quando ouvi Muddy Waters tocando e voltei a tocar novamente. Ainda bem!

Ouvi que Stone estava me procurando – ele havia me visto tocar num encontro de apresentações de improviso uma gravação de Stevie Ray Vaughan quando Mother Love Bone ainda rolava – para mim era uma grande oportunidade. Na minha cabeça, Stone havia conseguido por ter um contrato de gravação, ele já havia lançado discos, ele sabia qual era o jogo e para mim isso era inatingível. Stone e Jeff eram astros do rock em Seatlle, tive que perguntar a Stone depois de uma semana de jamming – nós vamos começar uma banda? O que quer fazer? Ele estava aflito e mantendo segredo. Eram tempos excitantes... novos... Era uma virada no destino.

P: O trio de Stone, Jeff e Mike rapidamente teve ideias de músicas, mas ainda buscavam um cantor e um baterista. Matt Cameron, baterista do Soundgarden e imponente na cena de Seattle, foi recrutado para tocar nas fitas demo. Oito anos depois ele se uniu ao Pearl Jam como o baterista.

Matt: Não podia prever o que aconteceria, obviamente, mas eram todas músicas muito bem estruturadas que definitivamente possibilitavam ouvir um vocal sobre elas. Era apenas uma diversão entre as horas. Não soavam como Mother Love Bone para mim. Parecia que Stone estava tentando algo diferente.

Stone: Eu esperava que escontrassemos alguém [para cantar] em Seatlle pois até então era assim que as coisas haviam funcionado. Nós adoramos o álbum The Uplift Mofo Party Plan do Chili Peppers e a bateria naquelas gravações. Depois, porque tinhamos sucesso em termos de ter conseguido uma gravadora, pensávamos ‘Certo, talvez devêssemos ter coragem suficiente de ligar para [o baterista] Jack Irons e ver o que ele está fazendo’, pois ouvimos naquela época que ele não tocava mais com o Chili Peppers. Ele tocava com Eleven – e eu literalmente apenas pergutei a ele a caminho da porta ‘se você souber de algum cantor, nos avise’ e ele me disse ‘É, eu conheço. Conheço um cara. O louco do Eddie’.

P: A fita demo foi entregue a Eddie Vedder que teve uma epifania sobre sua prancha de surf. Ele rapidamente gravou três vocais sobre a trilha e enviou de volta a Seattle. Qual foi a reação às músicas de Eddie?

Stone: Para Jeff foi instantâneo – ele adorou e muitos perceberam como ele era bom. Para mim foi um processo mais longo. Eu provavelmente era lento. Ele era claramente um bom cantor. Eu não entendia muito bem. Você pode ouvir uma música em sua cabeça, mas quando alguém realmente te devolve um vocal finalizado você pode ficar meio ‘Uau, essa é uma visão diferente’.

P: Quando Eddie voou a Seattle, ele insistiu em ir direto do avião ao ensaio no estúdio.

Stone: Eddie não era um bêbado. Ele era doce. Ele nos trazia presentes. Ele era bastante gentil e muito diferente e isso era uma grande mudança, então mergulhamos nisso e escrevemos diversas músicas. Aí percebemos que estava rolando. Você escreve músicas e sai para tocar, tenta colocar um pouco de você mesmo nelas e torce pelo melhor.

Mike: A primeira vez que Ed veio ao estúdio ele usava uma camiseta do Butthole Surfers. Ele tinha cabelo comprido raspado do lado, Bermudas e botas Doc Marten e era bronzeado, porque estava morando na Califórnia. Eu já o havia ouvido cantar em seu demo e sabia que ele tinha uma voz fantástica e excitante, então pensava como aquele cara poderia ser. Ele era do meu tamanho. Era baixo, despretensioso, mas quando abria a boca tinha essa voz tempestuosa e eu estava animado. Por ele estar ainda sentindo a situação, ele estava muito frio e sério, não se movia tanto como faz agora. Ele cantava com aquela voz incrível ali, de pé. Eu fiquei embasbacado.

Eu sabia que este era um daqueles momentos que aparece apenas uma vez na carreira de uma banda. Ele era o pedaço que faltava em nossa banda. Havia cinco caras em uma banda, todos tentando de tudo e Ed era o cara que podia nos levar à terra prometida. Não tinha ideia que isso se tornaria algo tão imenso como se tornou, mas sabia que éramos bons.

Jeff: Quando tocávamos com Ed sabíamos que algo estava acontecendo. Eu me sentia conectado ao que ele dizia, como ele cantava e à voz que ele trouxe à banda. Sentia mais conexão a essas coisas do que em qualquer outra banda que estive. No fundo eu sabia que ele havia nos dado algo ao qual as pessoas responderiam.

P: A banda trabalhava originalmente como Mookie Blaylock, o nome de um jogador profissional de basquete. Depois de assinarem com a Epic Records ficou claro que deveriam encontrar outro nome por razões legais. Como escolheram Pearl Jam?

Mike: Jeff, Ed e Stone viram Neil Young improvisando por muito tempo, portanto a palavra jam [que pode ser traduzida como improviso] era uma boa. Lembro da lista de nomes, estávamos sentados em um café B&O na Broadway. “Pearl” estava aqui em cima e “Jam” estava em meio aquele monte de palavras que estávamos juntando. Jeff colocou essas duas juntas e pensamos ‘é isso aí’.

P: Como foram as sessões de gravação de Ten?

Mike: Tínhamos feito algumas demos anteriormente no nosso estúdio, o Galleria Potato Head. Quando gravamos Ten, usamos aquelas ideias com as quais Stone e eu estávamos trabalhando, que Jeff, Stone e eu estávamos trabalhando e o que Ed havia cantado no período de uma semana – Alive, Once, Jeremy e algumas outras que não entraram para o álbum. Íamos ao London Bridge Studios em North Seattle para gravar diariamente alguns takes e complementá-los mais tarde ou no dia seguinte.

Fizemos Evenflow umas 50 – 70 vezes. Juro por Deus, era um pesadelo. Tocamos aquilo vez após outra até odiarmos uns aos outros. Eu ainda acho que Stone não ficou satisfeito com o resultado. Essa talvez tenha sido a coisa mais árdua, mas era também muito excitante estar em um grande estúdio de gravação pela primeira vez.

P: Quais são suas músicas preferidas de Ten?

Stone: Eu adoro Oceans. Isso provavelmeente resume porque me empolgo tanto compondo músicas. É como uma afinação de instrumentos onde o primeiro acorde é básico e são apenas dois dedos que tocam para criar toda essa coisa, depois desce uma posição e aí sobe de volta. Tem algumas pequenas variações nela, mas tem também três grandes movimentos. O que mais gosto na música são os acordes estéticos; quanto mais simples melhor e depois outro set que faz algo com os acordes originais. É realmente um arranjo simples.

Nós compusemos, tocamos e Ed cantou, outra coisa que ele faz. Nunca vi alguém se envolver tanto com composição como ele. Aqui está a música, deixe-me tocá-la para você. Funciona assim. Certo, tem uma mudança aqui, vamos fazer – aí ele cantava novamente. Eu ouvia a melodia e pensava ‘certo, ele vai escrever as palavras ou seja lá o que for’ e depois percebia que ele havia escrito a letra ali mesmo. Não entendia como alguém poderia fazer aquilo. Desde então, conheci muita gente que consegue fazer isso, isso abriu meus olhos, mas ele faz melhor do que qualquer um que já vi.

Matt: Quando estava no Soundgarden e estávamos produzindo Badmotorfinger, Eddie trouxe as mixagens do Ten e lembro perfeitamente de ouvir o refrão de Evenflow e pensar ‘isso é ótimo’. Tão envolvente, com uma pegada meio Zeppelin nela. Apesar de a termos tocado umas milhares de vezes desde que estou no grupo, acredito que seja a música mais importante do Pearl Jam. Apesar de ser tocada exaustivamente, a sua essência é maravilhosa. Oceans também é uma música fantástica. Muito divertida de tocar.

Mike: Gosto muito de Alive – a vejo como uma música ao vivo que temos tocado nesses anos todos a qual as pessoas respondem muito bem e têm um apreço emocional. E eu faço um solo divertido nela!

Jeff: Naquelo tempo era Oceans e ainda é minha faixa favorita. Quando a gravamos achei que estávamos inovando e que podíamos fazer muito com a música que fizemos. Gosto também da introdução e desfecho, é como uma arte, um projeto que fizemos um dia que alguém estava doente. Isso que mais me empolga, as coisinhas que estão fora da nossa zona de conforto. Todas as gravações que fizemos tem um projetinho de arte envolvido. Alguém entrava com uma ideia de algo maluco ou um jeito diferente de abordar a gravação ou composição ou ainda troca de instrumentos. Algumas vezes falhávamos, mas de vez em quando algo muito bom acontecia, o que cria um jeito novo de se fazer música junto. Quando sinto que estamos extrapolando e as pessoas estão gostando, isso é sucesso para mim.

P: Ten vendeu 12 milhões de cópias e se tornou um álbum inovador nos anos 90. O que pensam dele agora?

Stone: Acho que o Ten ainda é bom, mas eu não o coloco para tocar (risos). A nova mixagem é ótima. Isso é uma das coisas que mais me empolga, Brendan fazendo uma nova mixagem nela – soa um pouco mais com nossas gravações subsequentes, o que dá um tratamento diferente a ela.

Matt: Definitivamente venceu a barreira do tempo. Para mim, soa como uma banda tocando em um estúdio.

Jeff: Descobrimos com o tempo, mas não necessariamente os 17 anos que nos trouxe até aqui! Desde que fizemos nosso segundo álbum pensamos em remixar Ten. A versão original tem um pouco mais de produção dos anos oitenta. Quando Brendan mixou Vs., eu o perguntei se ele poderia remixar Ten apenas para mim, para que eu pudesse ouvir às musicas mais secas e diretas.

P: A reedição superluxo de Ten contém todos os tipos de extras, incluindo a fita demo original de Eddie, um DVD Acústico MTV, uma nova mixagem de Ten feita por Brendan O’Brien e versões vinil e notebook. Como isso aconteceu?

Jeff: A Sony tem nos pedido para fazer isso há algum tempo, mas Kelly, nosso empresário, teve a ideia de fazer um filme de retrospectiva do aniversário de 20 anos então ele tem conversado com [o diretor cinematográfico] Cameron Crowe nos últimos anos. Ele nos apresentou a ideia de reeditar alguns álbuns e eu fiquei muito animado em fazer Ten.

Não fiquei feliz com a embalagem original. Tínhamos restrições severas em termos do que podíamos fazer. Eles não nos deixaram lançar em vinil e isso foi uma decepção na época porque acho que eu nem tinha um CD player. Sou uma das últimas pessoas que conheço a comprar um CD player.

Antes, descobri que é melhor você mesmo fazer uma arte ruim do que ter alguém que crie algo que acredite representá-lo. Ed e eu sempre nos envolvemos muito com a nossa arte e Ten foi o único caso em que o produto final não era 100% o que queríamos. Houve um pouco de ‘bater cabeça’ com o departamento de arte da Sony naquela época. A versão que todos conhecem da capa de Ten era rosa, mas originalmente deveria ser algo mais cor vinho e a fotografia da banda deveria ser em preto e branco. Acho que esta reedição foi uma oportunidade de voltar e terminar o que começamos.

Tivemos dificuldade na verdade em encontrar fotografias originais, então tudo que tínhamos para trabalhar eram fotos em preto e branco, isso mudou um pouco a cor que tínhamos na original. Demos um toque final em tom de sépia. Ed e eu fuçamos em caixas e mais caixas de diários e recordações que fizemos durante as turnês e o making of do primeiro CD e criamos um diário com um monte daqueles artefatos e foi super divertido. Acho que foi a primeira vez que um de nós mexeu nisso em 17 anos, isso preencheu algumas lacunas de memória que tínhamos daquela época. Acho que virou um material muito legal, um material de fãs.

Mike: Quando fizemos o Acústico MTV tinhamos chegado da Alemanha aquele dia e estávamos cansados, com jet lag e ressaca. Alugamos umas guitarras que eram ok e não nos sentíamos tão confortáveis com isso, mas sabíamos que era algo legal de fazermos. Ninguém na banda tinha se sentido muito empolgado com essa apresentação, mas o Acústico MTV foi muito bom para alguns fãs durante todos esses anos – “cara, quando você vai lançar isso?” Então finalmente vamos lançar por causa da demanda dos fãs.

P: No começo, Ten vendia pouco e a banda viajou durante meses promovendo o álbum. Durante seus primeiros shows, Eddie Vedder era um líder travado. Ao final, ele era um performer inspirado. O que causou essa mudança?

Mike: O que fez Ed deixar de ser introspectivo e travado foi quando Chris Cornell, do Soundgarden o levou para beber e deu a ele uma ideia de talvez se soltar um pouco mais. Não sei o que ele fez, mas depois que começou a passer um tempo com Chris ele começou a se abrir um pouco mais. Aí, saímos em turnê, fomos à Europa algumas vezes e ele virou esse cara que escala a qualquer lugar no meio de uma música. Eu me preocupava toda vez que ele fazia isso.

Estávamos em San Diego – nós, Nirvana e Chilli Peppers. Ele pulou num bar mezanino, jogou o fio do microfone, escalou uns 12 metros enquanto fazíamos o solo de Alive. Eu pensava ‘esse cara vai cair e se matar e nossa carreira já era’.

Stone: Ed não se apresentava da mesma forma antes, não depois de 40 ou 50 shows. Talvez não tantos. De repente, ele descobriu como trocar energia com o público de uma forma que ele nunca havia feito antes, aí foi quando ele enlouqueceu. Ed sabe como vivenciar uma música e as pessoas conseguem ver em seus olhos e ouvir em sua voz e simplesmente embarcam nela.

Eu sabia que nós haviamos transcendido os shows. O disco seguinte seria provavelmente o que eu considero a gravação mais sábia. Eu vi como ele poderia mudar e evoluir, o que me deu muita inspiração para pensar “nós podemos fazer baladas, ritmos mais rápidos, mais lentos e punk”. Foi aí que eu percebi que havia várias possibilidades para Ed. Tê-lo cantando qualquer coisa, as letras que ele escreve e a maneira como ele se conecta ao material é fantástico. Ele realmente adora se envolver, encara o desafio de cada música e os diferentes jeitos que ela tocava cada um. Basta escutar algo uma vez para que ele ofereça uma variedade incrível em termos de vocais e ritmos. Ele tem tantos pontos de vista diferentes que é quase como visitar a Disneylândia.

P: A banda se tornou muito famosa em pouco tempo e ao invés de torrar cada centavo, vocês tomaram o caminho oposto e pararam de gravar clipes e entraram em uma batalha contra a Ticketmaster. O grupo todo concordou com isso?

Mike: Eu não curti a ideia de retrosceder na época. Eu queria continuar subindo e entrar na onda, gravar clipes, fazer turnês, não jogar fora essa enorme oportunidade. Olhando para trás, foi a decisão certa.

Aconteceu do nada e muito rápido, era de virar a cabeça pra baixo. Estava nos afetando de maneiras diferentes, não estavamos nos falando muito, estávamos indo a muitas festas, Ed estava na capa da revista Time – tudo explodiu e se nós não tivessemos feito isso naquele momento... Certamente a gravadora não queria que nós tomássemos essa atitude. Eles queriam que nós fizéssemos um clipe para Black, que tocássemos em todos os programas, fossemos a todos os lugares que eles nos mandavam e eles ficaram muito putos e brigaram por muito tempo conosco por causa disso.

Jeff, Stone e Ed quiserem pisar no freio e nos salvaram.

Matt: Não podia prever o que aconteceria, obviamente, mas eram todas músicas muito bem estruturadas que definitivamente possibilitavam ouvir um vocal sobre elas. Era apenas uma diversão entre as horas. Não soavam como Mother Love Bone para mim. Parecia que Stone estava tentando algo diferente.

Jeff: Na época a gente achava que vender milhões de discos era uma maldição. Vimos o REM diminuindo o ritmo, o que parecia a coisa certa a se fazer, já que eles tinham tido uma origem semelhante a nossa. Mas diminuir aquele poder acabou nos dando uma grande liberdade de fazer as coisas de um jeito que 90% das gravadoras não aprovavam. Criamos nosso próprio método e regras de como agir e ainda o estamos aperfeiçoando, já que a tecnologia está mudando as coisas agora.

Stone: O processo de gravar um clipe era muito trabalhoso para nós. Não era algo com o que nos sentiamos confortáveis, conferindo se a edição estava indo bem, se ele seria tão inovador como havíamos planejado. Essas eram batalhas que duravam semanas e até meses. Às vezes gastávamos US$200,000 em uma obra de arte que ninguém tinha visto, então parecia uma perda de tempo porque preferíamos estar tocando em shows ou escrevendo novas músicas.

Depois que ganhamos o vídeo do ano por Jeremy, ficamos meio que “Conseguimos! Fizemos o melhor clipe desse ano no planeta, então vamos fazer alguma outra coisa”.

P: Com o passar dos anos, o Pearl Jam tem apoiado incrivelmente os fãs. Isso sempre esteve nos planos ou isso evoluiu?

Stone: Sempre esteve nos planos no sentido de que logo percebemos que fazer as coisas sozinhos é bom. Nenhum de nós esperou alguma coisa acontecer. Nós simplesmente começamos a tocar, a fazer shows e a fazer camisetas, gravando e fazendo singles coloridos. Começamos por conta própria.

Mike: Nosso grupo de fãs é muito importante para nós. Eles são tudo. São a razão pela qual estou sentado aqui no sofá do seu depósito. Nosso negócio é fora daqui, e isso é muito importante. Nos mantêm vivos como banda. Eles são extremamente importantes e nos acompanham, assistem a milhares de shows. Isso me deixa lisonjeado.

Jeff: Depois que vendemos um zilhão de discos com Ten, ganhamos um pouco de poder, então resolvemos exercê-lo. O que um fã gostaria? Olhamos as coisas desse ponto. A forma como Pink Floyd lançou embalagens usando artes psicodélicas, como Led Zeppelin usou embalagens realmente especiais... Eram místicas e muito criativas e algumas vezes completamente fora de série. Gosto de pensar que usamos um pouco desse poder pra fazer coisas mais legais.

P: Pearl Jam foi uma das primeiras bandas a lancer bootlegs [conteúdos exclusivos que não necessariamente fazem parte dos álbuns da banda] oficiais – e agora downloads na internet – de seus shows. Vocês passaram por alguma objeção de qualquer gravadora quando começaram a fazer isso?

Stone: Tenho certeza que alguém falou que era uma má ideia, mas fomos em frente pensando que no fim das contas eles iam dizer “oh, nós vendemos milhares de discos… então beleza”. Não consigo me lembrar de quantas vezes tivemos que obrigar a gravadora a deixar-nos fazer bootlegs.

Mike: A força por trás dos bootlegs foi Kelly Curtis, nosso empresário, que falou disso com Jeff Ament e Eddie. Sempre curtirmos bootlegs como banda, mas veríamos os nossos próprios por aí, os coletaríamos e eles seriam de qualidade inferior. Então decidimos nós mesmos colocarmos e cobrar um pouco menos por eles tendo certeza de que soariam o melhor possível.

P: Quais são seus lugares preferidos em turnês?

Mike: Eu adoro a Inglaterra. Adoro caminhar pelo Hyde Park. Também gosto de tocar em Roma, Milão. Nossa turnê pela Itália foi muito interessante. O Columbia River Gorge é meu lugar favorito pra tocar aqui em Seattle. Fizemos alguns shows com o Neil Young e logo em seguida fizemos um disco chamado Mirrorball com ele, que nos convidou para participar de sua turnê europeia. Foi um sonho. Pudemos tocar um monte de músicas com ele e ainda fomos a Berlim, Jerusalém, ao Mar Vermelho.

Jeff: A Europa está no nosso radar agora e ainda estamos pensando em como fazer shows por lá nos próximos 18 meses. Muito vai depender do quão rápido vamos acabar nosso novo disco.

Só estivemos na América do Sul uma vez, mas foi fenomenal. Os países europeus que tem uma vibe similiar aos da América do Sul são Espanha e Itália. Fizemos uma ótima turnê pelo Canadá em 2005, incrível. É legal saber que ainda existem lugares onde não tocamos. Ainda não fomos para o Alasca, nem para Islândia e precisamos muito voltar para a Finlândia, porque fizemos um show lá em 93, com o Neil Young, que não foi dos melhores.

P: O Pearl Jam celebrará o vigésimo aniversário em 2010. Vocês se veem trabalhando por tempo indeterminado?

Stone: Seria sensacional se acontecesse – se olhássemos uns para os outros daqui a 10 ou 20 anos e pensássemos como chegamos até ali. Teríamos que tocar Evenflow bem pretenciosa com uma pincelada disco (risos). Nossos fãs vão ser tão velhinhos que nem vão conseguir nos ouvir muito bem, então podemos ser video-transformados para parecermos 30 anos mais jovens.

Matt: Só não quero virar os Rolling Stones.

Mike: Acho que nunca pensamos que nossa banda duraria 20 anos. E nós ainda dizemos que isso é incrivel!

Jeff: É uma loucura pensar que duramos 20 anos. No começo achei que faríamos 3 ou 4 álbuns, um pouco de sucesso e que tocaríamos com alguns dos nossos ídolos. Provavelmente o maior benefício dessa carreira foi ter dividido o palco com Iggy Pop, Henry Rollins, REM, Neil Young, os Rolling Stones e Frank Black… A lista é enorme. Poder tocar com todas essas bandas e artistas que crescemos amando e ainda amamos é como um sonho de criança se tornando realidade.

P: Qual o segredo dessa longeividade?

Mike: O Pearl Jam sobreviveu todo esse tempo por sorte e porque ao longo dos anos nós confrontamos uns aos outros quando tivemos problemas. Temos canais abertos de comunicação e conversamos se temos algum problema. A razão pela qual duramos tanto foi por escrevermos nossas músicas, sermos muito intensos, nos afastarmos uns dos outros, fazermos nossas próprias coisas e nos unirmos de volta. Damos espaço uns aos outros.

Jeff: Esse é o principal motivo pelo qual ainda estamos juntos. Houve um momento em 93 ou 94 em que nós nos afastamos por 6 meses, não nos falamos, não sabiamos onde cada um estava e fomos viver a vida. Isso nos deu uma enorme energia criativa para sairmos da bolha. Logo depois desse período, todos começaram projetos paralelos, começaram a trabalhar na própria música e isso foi muito importante e satisfatório individualmente.

P: O Pearl Jam sempre foi uma democracia?

Jeff: Não sei se em algum momento foi uma ditadura… Começamos a banda achando que seria uma democracia, mas houve momentos nesses últimos 15 anos em que Ed teve que tomar as rédeas, porque estávamos a ponto de explodir. Nesses momentos não tinhamos certeza do que estávamos fazendo. Ele fez um ótimo trabalho botando o navio de volta a sua rota. Ele não tinha pudores em pedir ajuda. Agora estamos mais confortáveis para nos ligarmos e perguntar “O que você acha disso? Eu adoraria asusmir esse projeto”. Isso faz com que todos se sintam genuinamente parte da banda. O Pearl Jam é uma banda de verdade.

Stone: Sou o cara mais sortudo do mundo, porque estou numa banda e escrevo canções com outros 5 compositores. Consigo aprender com o processo de como a estrutura de uma música muda e como as pessoas podem ouví-la de forma diferente, com ritmos e melodias distintas. O Ed consegue se relacionar com todas essas coisas diferentes, sempre vê de fora e continua explorando lugares novos. Eu posso tocar com Matt Cameron, posso tocar com Eddie Vedder, qual é?! E posso tocar a guitarra junto.

P: Quais suas músicas preferidas do Pearl Jam?

Stone: Nothing Man. Não fui eu que a escrevi, foi o Jeff Ament. Dave Abbruzzese toca bateria muito bem nela. Jeff trocou os acordes; acho que ele e Ed decidiram antes. Um estilo bem Jeff Ament, sua proximidade de tocar a guitarra. Era sua marca registrada, mas ao mesmo tempo, supersimples. Ed se conecta tão bem com isso que qualquer um que a escute quer cantar junto.

Matt: Eu adoro tocar Glorified G, uma faixa do nosso segundo álbum. É uma ótima música bem complexa do Pearl Jam porque tem guitarras que se contrapõem na direita e esquerda e um baixo meio funky.

Stone: Tenta ser country e funky ao mesmo tempo (risos), o que é bem bizarro.

Mike: Alive ou Evenflow, mas principalmente Alive, porque é nosso clássico. Uma música que nos identifica. É nosso hino. Sei que os outros provavelmenete não diriam isso, mas é o que eu acho dela e o que as pessoas me dizem. Alive sintetiza as letras e a musicalidade dessa banda.

Jeff: Há muitas músicas que eu gosto do Vitalogy. Last Exit, Nothing Man e Tremor Christ foram gravadas no estúdio do Daniel Lanois, em New Orleans. Há algo no som dessas músicas e como elas saíram fácil. Adoro tocar Last Exit ao vivo e sempre que eu a escuto parece que fizemos a coisa certa, é natural como se tivéssemos capturado o que estava saindo de nós.

FOTOS
VÍDEOS
Pearl Jam: World Wide Suicide
Pearl Jam: Alive
Pearl Jam: Even Flow
Pearl Jam: Save You
Pearl Jam: Jeremy
Pearl Jam: Daughter
Pearl Jam: Do the Evolution
Pearl Jam: Porch (Live)
Ladies Night
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